





















(Fotos Studio Flávio) – (Katiuscia R Oliveira)
1.Como foi sua jornada para se tornar um empresário e produtor rural, desde o início até hoje? Poderia compartilhar um pouco sobre seu testemunho de vida nesse percurso?
Sou filho de produtor rural, chacreiro, no Caverá. Estudei em escola rural concluindo o Ensino Fundamental em 1992. Um ano depois vim para a cidade e continuei os estudos na Escola Emílio Zuñeda, onde conclui o Curso Técnico em Contabilidade. Com a conclusão do curso, sai a procurar emprego para me sustentar pois minha família muito humilde, não tinha como me manter na cidade sem trabalho. E surgiu o meu primeiro emprego, entregador do jornal Zero Hora, atividade que desempenhei por um ano. Depois, passei a trabalhar no Supermercado da CAAL, emprego que abracei no final de 1993 lá atuando durante três anos, quando passei a ser office-boy, posição que mantive até o final de 1997, quando deixei a CAAL. Naquela época, o Frigorífico Servieri estava chegando na cidade, incentivado pelo governo Brito para reabrir frigoríficos. Indicado por uma pessoa da CAAL, comecei a trabalhar lá. Infelizmente, o frigorífico não foi bem e fechou dois anos depois. Foi durante esse período que conheci Leonel Garcia, que estava abrindo um beneficiamento de arroz em Cristal, cidade próxima a Camaquã. Ele me convidou para cuidar da parte administrativa do engenho, que abria em sociedade com James Cruden, presidente da multinacional Anglo no Brasil.
Em 1999, saí de Alegrete para Pelotas, com minha moto, levando apenas uma mochila. Lá encontrei-me com Leonel Garcia e no dia seguinte fomos para Cristal. A empresa, no entanto, não prosperou bem e, apesar de beneficiarmos arroz por um ano e meio, o negócio não foi adiante. Então, James me convidou para ir para Barretos, interior de São Paulo, onde a Anglo tinha sua sede, onde no final de 1999, início de 2000, fui morar em Barretos para trabalhar na Anglo. Com o apoio de James, comecei minha carreira na indústria da carne. Numa empresa grande, com 900 funcionários, comecei na parte comercial, vendendo carne, que foi meu primeiro contato com vendas e com o setor de carnes.
Até o ano de 2007 permaneci em São Paulo, trabalhando em empresas como Marfrig, Friboi e Frigorífico 4 Marcos, sempre na área comercial. Nesse meio tempo, a Marfrig precisava de um gerente para o Rio Grande do Sul, pois havia comprado empresas do mercado sul. Fui transferido em 2007 para tocar a operação do Rio Grande do Sul pela Marfrig, onde fiquei até 2017. Depois, voltei para São Paulo e continuei na Marfrig por mais um período.
2.Como surgiu a ideia de estabelecer a Casa de Carnes Santo Antônio e expandir para uma agroindústria? Quais foram os principais desafios enfrentados nesse processo?
Em 2018, tomei a decisão de voltar para o Sul, pois não aguentava mais o trânsito em São Paulo. Comecei a procurar algo para investir no Sul, visando essa mudança. Naquela época, eu já atendia a Casa de Carnes Santo Antônio com produtos da Marfrig. O Marcos, antigo dono da Casa de Carnes, me ofereceu o negócio. Eu já conhecia os números da Santo Antônio e sabia o que ela vendia, então vi ali uma grande oportunidade de retornar com um investimento em mãos.
O negócio foi fechado com a compra da Casa de Carnes Santo Antônio em 2019. A ideia era de abrir uma filial e fomentar a parte de agroindústria, que já existia, mas era muito pequena e atendia apenas em nível local. Assim, comecei a investir e expandir. No ano seguinte, consegui abrir a filial, e o principal desafio era aumentar a produção da agroindústria da Santo Antônio. Com a filial, houve um crescimento na produção, transformando o que era uma pequena operação em algo mais robusto.
No ano seguinte, procurei a Prefeitura e apresentei meu plano de expandir os negócios para fora de Alegrete, pois acreditava que a linguiça da Santo Antônio, já bem conceituada na região, teria sucesso em diversas partes do Estado. Depois de cumprir todos os requisitos para obter a liberação do SISB (Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal) e poder vender fora de Alegrete, a liberação foi conseguida e, assim, nossas produções se fortaleceram significativamente. Os principais desafios foram adequar a empresa para obter a liberação de produzir mais e expandir a distribuição da mercadoria.
3.Poderia nos contar mais sobre os produtos principais da sua agroindústria, especialmente as linguiças com diversos sabores? Quais estratégias foram adotadas para torná-los tão populares?
Nosso principal produto da agroindústria é a linguiça. O primeiro aspecto que nos preocupa é a matéria-prima a ser utilizada. Ao longo dos anos, a linguiça passou por uma grande transformação. De um mero acompanhamento de churrasco ou aperitivo, tornou-se o principal item do churrasco, sendo apreciado por todos. Portanto, a matéria-prima e a consistência do sabor são fundamentais.
Mas o que significa consistência de sabor? Posso dar um exemplo. Quando você compra um McDonald’s na China e outro em Erechim, o sabor é o mesmo. Isso é consistência. Esse foi o desafio que enfrentamos. A linguiça precisa ter uma fórmula consistente, que não pode ser alterada. Assim, estabelecemos parâmetros, como a melhor carne a ser utilizada, os temperos ideais e as medidas adequadas para o produto. Criamos uma ficha técnica, mas não podemos controlar totalmente, pois usamos apenas produtos naturais. Portanto, pode haver pequenas variações, como um leve aumento na picância.
Com isso, tornamos as linguiças mais populares através da regularidade na produção. Começamos a distribuir nossos produtos em diferentes pontos de venda, abrindo portas para diversos mercados. Apesar de o mercado de produtos embutidos ser dominado por salsichão, nossa linguiça é o oposto. Quem prova a linguiça da Santo Antônio , feita de forma artesanal, com carnes de qualidade e tripas importadas, não volta a consumir salsichão. Depois que quebramos essa barreira, aquele consumidor se torna nosso cliente fiel. Isso é muito importante para a cidade, que tem uma forte produção de linguiça.
4 . Além das linguiças, quais outros produtos a agroindústria oferece? Como é o processo de diversificação do catálogo de produtos?
A agroindústria da Santo Antônio atualmente oferece uma ampla variedade de produtos, incluindo trinta e dois sabores de linguiça, quatro tipos de charque (charque bovino manta, charque bovino picado, charque ovino manta e charque ovino picado), além do charque Light, uma opção sem gordura entre outras variedades de carnes. Nosso catálogo de produtos é bastante diversificado, e estamos sempre abertos a novas ideias e sugestões dos clientes para expandir ainda mais nossa oferta.
5. Sabemos que seus produtos são vendidos em várias cidades. Como foi o processo de expansão da sua marca para novos mercados? Quais foram os principais aprendizados ao lidar com diferentes regiões e consumidores?
Bom, é algo que já faz parte da minha carreira, desde 1998, 1999, eu estava envolvido com vendas. Sempre ouvi dos clientes a necessidade de ter constância no fornecimento e produtos de qualidade. Então, peguei uma pasta, coloquei embaixo do braço e saí para vender linguiça. Graças a Deus, eu já conhecia muito bem a maioria dos clientes que atendemos hoje. De porta em porta, apresentei nosso produto e, como mencionei na pergunta anterior, discuti detalhes como peso e embalagem para oferecer nossos produtos. Assim, começamos a produzir linguiça.
Um passo importante no início foi oferecer marcas próprias. Por exemplo, quando um cliente me procura e diz que tem potencial para vender mil quilos de linguiça, sugiro que ele coloque sua própria marca, não a marca Santo Antônio. Hoje, além da marca Santo Antônio, produzimos diversas marcas de linguiça para nossos clientes. Eles vendem com a garantia de sua própria marca, pois os clientes confiam nos açougues e nas lojas onde compram. Nada melhor do que o cliente ter sua própria marca associada a um produto de qualidade.
Existe uma cadeia única na verdade. O produtor de terneiros é também um produtor de carne, e o produtor de bois é um produtor de carne, não apenas de animais, pois esses animais se destinam diretamente à alimentação. Portanto, ele é um produtor de alimentos, e a agroindústria apenas realiza essa transformação, mudando a categoria do animal para a de proteína. Compreender as necessidades e reduzir a distância entre o consumidor de carne e o produtor de bovinos é fundamental, especialmente vindo do nosso processo de abate. E esse abate vem dos produtores de Alegrete que nos fornecem na Santo Antônio. Então, entender o tipo de gado que possuem, o produto resultante e onde podemos transformar esse gado em carne para atender melhor o consumidor é crucial. Podemos então fornecer o feedback que o cliente está dando sobre a carne e o produto. A maioria dos produtores hoje está muito preocupada com isso. Eles vendem e depois perguntam: “E aí, como estava a minha carne? Como foi o meu gado?” Isso destaca a importância da matéria-prima que o consumidor deseja, a carne que ele quer. Isso vai estreitando os laços e a cadeia como um todo.
Bom, diariamente, em nossas duas lojas e agroindústrias, todos os resíduos que geramos, basicamente papelão e plástico – provenientes das embalagens que utilizamos para a carne -, são recolhidos e entregues em pontos de reciclagem. Fazemos isso para garantir que esse papelão e plástico sejam destinados corretamente, evitando que fiquem jogados nas ruas ou dispersos. Temos esse cuidado em mente.
Outra ação muito importante que tomamos neste ano, foi tornar nossa empresa totalmente sustentável em termos de energia. Todas as suas operações, incluindo a indústria localizada dentro de uma das lojas, são alimentadas cem por cento por energia solar. Este é um passo significativo para a conservação do meio ambiente e a luta contra o aquecimento global. Nossas operações hoje são totalmente sustentáveis e baseadas em energia renovável. Nosso cuidado com isso é grande, pois o futuro do país e o ambiente em que nossos filhos viverão dependem disso. O Santo Antônio leva essa preocupação muito a sério.
Claro. A tecnologia tem sido uma grande aliada nesse sentido. Desde o maquinário equipado com inteligência artificial até os sistemas de última geração a vácuo, a tecnologia está revolucionando nossa produção. Essas máquinas realizam o trabalho que antigamente exigia três de nossas máquinas, proporcionando uma eficiência muito maior. Esse avanço tecnológico não só reduz o consumo de energia, mas também aumenta nossa eficiência de produção, o que é fundamental. Trabalhar com equipamentos que nos ajudam a produzir mais é essencial.
Atualmente, temos embutideiras que fazem em uma hora o que uma pessoa levaria o dia inteiro para fazer. Da mesma forma, nossos moedores agora conseguem processar todo o nosso produto em uma hora, algo que antes levava seis horas. Esses equipamentos tecnológicos melhoram significativamente nossa eficiência de produção e garantem uma qualidade superior. Além disso, reduzem o risco de perda de qualidade do produto devido à manipulação, pois o produto mantém sua temperatura ideal durante o processo. Portanto, investir em equipamentos tecnologicamente avançados não só aumenta nossa produção, mas também melhora a qualidade do nosso produto.
Até hoje em trinta municípios, certo? E a expansão foi logística. Hoje, a maior dificuldade do nosso Estado é logística. Estamos localizados a quinhentos quilômetros da capital. Isso torna um pouco mais difícil, não que seja um empecilho, mas já dificulta um pouco a construção desse canal de atendimento. No entanto, investimos em logística. Atualmente, temos três carros próprios que fazem as entregas. Além disso, temos uma parceria muito forte com transportadoras que cobrem Alegrete e todo o Rio Grande do Sul. Dessa forma, conseguimos entregar um produto em qualquer lugar do Rio Grande do Sul em vinte e quatro horas. Isso é uma grande facilidade. Além disso, estabelecemos rotas de atendimento com nossos próprios carros para alcançar essas localidades. Portanto, investimos em logística para aprimorar esse aspecto.
10.Além das linguiças, sabemos que sua agroindústria também oferece uma variedade de carnes. Poderia compartilhar conosco mais sobre a qualidade desses produtos e como você garante sua excelência?
Nosso compromisso com a excelência dos nossos produtos se baseia em duas formas principais. Primeiro, a parceria com fornecedores de qualidade, como Flávio Calovi, responsável pela originação do gado que fornecemos. Eu pessoalmente reviso cada lote de animais, desde a compra até a escolha da carne após o abate, garantindo que atendam aos padrões exigidos. Isso também envolve orientar os pecuaristas sobre os melhores métodos de criação. Em seguida, as carnes passam pelo frigorífico local para garantir que cheguem às nossas lojas com a temperatura correta, mantendo sua qualidade. Além disso, nossa equipe é altamente treinada e comprometida com a excelência e o respeito ao cliente, garantindo um atendimento de qualidade em todas as etapas.
11.Soubemos que sua empresa tem realizado eventos na cidade, como a “Churrascada” durante a exposição feira de Alegrete, Festival da Linguiça já em sua 2ª edição. Poderia nos contar mais sobre esses eventos e como eles contribuem para a promoção da marca e o envolvimento com a comunidade local?
A Santo Antônio está envolvida em vários projetos sociais, embora nem sempre seja publicamente reconhecida por isso. Participamos ativamente de doações e eventos que levam o nome da nossa marca a novos consumidores. Esses eventos são essenciais para fortalecer nossa marca e manter nossa presença na mente dos consumidores. Assim como a Coca-Cola, que continua investindo em marketing mesmo sendo uma marca amplamente reconhecida, nós buscamos fortalecer nossa identidade e ser lembrados em momentos como churrascos, almoços e petiscos. Recentemente, realizamos um evento chamado Churrascada, que reuniu 800 pessoas em um domingo ensolarado, apesar dos contratempos causados por um temporal no dia anterior. Agora, estamos nos preparando para um novo evento especial durante a Chama Crioula. Além disso, participamos ativamente do Festival da Linguiça, que está em sua segunda edição e é realizado no Parque Dr. Lauro Dorneles, aqui em Alegrete. Este evento é uma oportunidade única para promover nossos produtos e fortalecer ainda mais nossa marca junto à comunidade local e aos visitantes.
Vamos falar do futuro, que é algo empolgante, não é? Mas sempre que falamos do futuro, devemos pedir a Deus que vá à nossa frente para que nosso caminho seja conforme Ele planejou, e não como queremos. Mas se os planos de Deus e os nossos estiverem alinhados, é maravilhoso. Conseguimos alcançar nossos objetivos. Nosso plano é expandir na Fronteira Oeste, especialmente nas cidades fronteiriças. Abrir lojas nessas cidades é nosso principal objetivo, além de estabelecer mais uma unidade aqui em Alegrete. Em relação à linguiça, estamos consolidando nossa posição, graças a Deus, e continuaremos buscando atender cada vez mais o estado e, consequentemente, a capital. Nossos planos são crescer organicamente, dando um passo de cada vez, entendendo o mercado e observando como ele aceita nossos produtos. É isso que espero para a Santo Antônio, e que Deus nos conceda muita saúde, para mim, para todos os meus colaboradores, para minha família, para que possamos continuar firmes nessa jornada da vida.





